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  • Ômar Souki

A arte da prudência

Ser prudente, ser sensato, por quê? Porque existem limites para o nosso comportamento. Você está passeando descalço pela praia, sente o suave e morno toque da areia na planta dos pés. Escuta o romper das ondas e vê a imensidão do mar, que, ao longe, se encontra com um céu de azul profundo. Entra n´água e começa a nadar. Vai até certo ponto, pára e verifica se dá pé. Se não der pé, nada de volta e verifica novamente se seus pés conseguem atingir o fundo do mar. Agora sim, pode ficar de pé, dentro d´água. Permanece ali por algum tempo sendo massageado pelas ondas que vêm e que vão. Estar ali é agradável, é seguro! Não só lhe dá uma sensação de relaxamento, mas também de estar pisando em solo firme. Enfim, ali dá pé!

Imagine se você tivesse continuado a nadar sem verificar a profundidade. Imagine-se adentrando o mar despreocupadamente. Isso seria imprudência. Imprudência é ir além de nossas reais possibilidades. Há pessoas que confundem imprudência com coragem. Nadam e nadam, até o ponto em que não agüentam mais. Quando pensam em ver se dá pé, é tarde demais. Há certas ondas que puxam, não em direção à praia, mas para mais e mais longe dela. Depois de estar exausta, a pessoa já não consegue mais vencer a força das ondas e pode se afogar. Quer nadar em direção à praia, mas uma força maior a atrai mar adentro. Inicia-se uma batalha feroz de vida ou morte. Eu já me vi nessa situação. Felizmente, consegui reunir minhas últimas forças, pedir ajuda a Deus, e — num esforço sobrenatural — conseguir me salvar. Já fui muito imprudente.

Ser prudente não é ser covarde. Ser prudente é reconhecer que temos limites. Sensatez não é fraqueza, mas força! Houve uma época em que eu achava que limites existiam para ser rompidos. Eu tinha que ser audacioso e correr riscos desnecessários. Quando nossa auto-estima está em baixa queremos provar para nós e para os outros que somos mais do que realmente somos. Por experiência própria, eu sei que ser imprudente dói. Dói muito! Pode nos custar a família, a saúde, a reputação e, às vezes, a própria vida.

Baltasar Gracián, jesuíta espanhol, nascido em 1601, escreveu o livro A arte da prudência (Editora Martin Claret). Dentre os vários conselhos que nos oferece, vale a pena destacar os seguintes:

Regra para se ter sorte. A sorte tem suas regras, e, para os sábios, ela não é tão cega. A sorte conta com a ajuda do esforço. Os sensatos não esperam pela sorte. Vão atrás dela com uma audácia cautelosa. Amparada pela coragem e pela virtude, a audácia espreita a sorte e a seduz com determinação.

Deixar o jogo enquanto estiver ganhando. Uma retirada elegante é tão importante quanto um ataque de estilo. Ponha a salvo os seus sucessos, tão logo forem suficientes, quando forem muitos. A dona sorte nos compensa trocando a curta duração pela intensidade dos esforços. Mas, ela se cansa quando tem de carregar alguém nas costas por muito tempo.

Ser cortês. A cortesia custa pouco, porém recebe um belo dividendo: quem respeita é respeitado. A polidez e a honra têm essa vantagem: nós as concedemos aos outros sem perder nada. A cortesia cativa a boa vontade de todos.

Nunca mostrar aos outros, coisas inacabadas. Que sejam apreciadas em sua completude. Todo início é disforme, e o que permanece é a imagem da deformidade. A lembrança de ter visto algo incompleto, turva nosso prazer quando aquilo se completa.

Não fazer tempestade em copo d´água. Algumas pessoas transformam tudo em caso. Estão sempre falando com importância. Sempre levando as coisas muito a sério, transformando-as em controvérsia e mistério. Poucas coisas aborrecidas são importantes a ponto de justificar o nosso empenho. Às vezes o remédio causa a doença.

Ter reservas em todas as coisas. Não gaste todos os seus talentos, nem ostente todas as suas forças em qualquer circunstância. Mesmo no conhecimento, resguarde uma parte. É preciso ter algo para alguma emergência. A prudência segue por caminhos seguros.

Ser santo; isso diz tudo. A virtude é o centro de toda a felicidade. Três esses nos tornam bem-aventurados: sábio, sadio e santo. A virtude é o sol do mundo; de tão encantadora ganha a graça de Deus e das criaturas. Não há nada tão amável quanto a virtude, nem tão detestável quanto o vício.


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Divinópolis, Minas Gerais - Brasil

©2020 por Eduardo Alvim